terça-feira, 27 de outubro de 2009

1º Festival Cultural Fala Favela


O Curso de Formação de Agentes Culturais Populares, que está sendo desenvolvido na UFF/Niterói, formará no mês de Novembro sua primeira turma.

O Projeto estimula a formação e consolidação de redes que articulem as iniciativas culturais desenvolvidas nas favelas, com a intenção de criar condições para a produção e fruição de bens culturais em espaços populares, com base numa lógica inclusiva, respeitando a diversidade e pluralidade da cultura popular.

O objetivo é qualificar/capacitar 30 agentes culturais através do curso de formação, que combina momentos de estudo de teorias e troca de experiências práticas, com a perspectiva de contribuir na construção de alternativas de geração de emprego e renda para os moradores dos espaços populares;

Nesta etapa final os alunos irão realizar com os educandos do curso o festival “Fala Favela” na UFF para fomentar e divulgar as produções culturais das favelas, através de concursos, mostras, palestras, exposições, etc....

Contamos com a presença de todos!

Data: 19/11

Hora: à partir das 9:00 hs (manhã)

Local: UFF/Niterói - Campus Gragoatá (Praça São Domingos)

Entrada Franca

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Olhar estrangeiro

Roda de funk na Cidade de Deus




por Adriana Facina (UFF/OICult)






Quantos Morros Já Subi
Composição: Mario Sergio/Arlindo Cruz/ Pedrinho da Flor

Quantos morros já subi desci sem ver



O que falam por aí me faz tremer


Essa gente vive assim sem reclamar


Lá ninguém é tão ruim, lá também se sabe amar


Todo mundo é irmão
Todo mundo é irmão, todo mundo é companheiro



lá no morro da Formiga, do Borel e Salgueiro


Lá tem samba pé, no chão, poesia verdadeira


Lá no morro da Serrinha, lá no morro de Mangueira
Quantos morros...
Essa gente vive em paz, essa gente faz o bem



Seja no Pau da Bandeira, seja na Vila Vintém


Esse povo que a cidade chama de fora da lei


Vive com dignidade sem levar vida de rei.
Eu já vi muita alegria, muita gente a sorrir



No morro do Juramento, Pavãozinho e Tuiuti


Eu já vi felicidade muita gente ser feliz


No alto do Andaraí e no morro da Matriz
Essa gente vive em paz, essa gente faz o bem



Seja no Pau da Bandeira, seja na Vila Vintém


Esse povo que a cidade chama de fora da lei


Vive com dignidade sem levar vida de rei.
Subi o morro que a sociedade não quer enxergar como eu enxerguei



Chacrinha, Turano, Rocinha e outros lugares que eu não cantei


No morro que eu pude encontrar amizade que em outros lugares que não encontrei


Vive com dignidade sem levar vida de rei


Recentemente, vi um filme que achei genial. Olhar estrangeiro é um documentário dirigido por Lucia Murat e foi lançado em 2006. O argumento veio da pesquisa de um professor do curso de Cinema da UFF, Tunico Amancio, que pesquisou as representações do Brasil em filmes realizados por estrangeiros e publicou o livro O Brasil dos gringos: imagens no cinema (Intertexto, Niterói, 2000) sobre o assunto. Essas representações são fortemente estereotipadas e deturpam escancaradamente a realidade. Nesses filmes, mulheres andam nuas ou de topless pelas praias, macacos convivem com as pessoas na cidade, há selva amazônica no Rio de Janeiro, nossa língua materna é o espanhol, nossas vidas são conduzidas a partir de rituais religiosos exóticos que reúnem candomblé, pajelança e sabe-se lá o que. Os homens são malandros, as mulheres são putas. Enfim, somos todos exóticos, sensuais e violentos selvagens.



Em Olhar Estrangeiro, Lucia Murat entrevista os realizadores desses filmes, questionando-os sobre como construíram essas imagens sobre o Brasil. Surpreendentemente, alguns deles nunca tinham vindo ao país ou apenas passaram por aqui brevemente. Ou seja, desconheciam a realidade sobre a qual discursavam em seus filmes.



Numa das entrevistas, a diretora diz a um realizador que no Rio não tem selva e ele responde que aquilo era uma invenção legítima. Quando Murat indaga como seria se se fizesse o mesmo com Nova York, o camarada faz uma cara de espanto, claramente indicando que o caso aí seria diferente! A gente sente uma revolta e percebe que a indignação também está presente durante todo o filme. Logo no início, a diretora finca uma bandeira verde-amarela como que demarcando o território da praia, largamente explorado nesses filmes, como coisa nossa.



O mais grave é que a maioria das pessoas “comuns” que são entrevistadas, de diversos países, repete os clichês propagados nessas obras, demonstrando o seu poder dessas em construir subjetividades através desse “olhar estrangeiro” que exotiza e inferioriza o outro, ao mesmo tempo em que lhe devota profundo desinteresse humano.



Gostei muito do filme, mas logo me lembrei que a produção seguinte da Lucia Murat foi o Maré, nossa história de amor, de 2007. Todos os moradores da Maré que conheço não gostaram desse filme, não se sentiram representados por ele, consideram-no ridículo e estigmatizante. E aí pensei o quanto seria interessante um filme como Olhar Estrangeiro voltado para problematizar os chamados “favela movies”. Com raras exceções, como é o caso de Uma onda no ar, de Hevelcio Ratton, de 2002, a produção cinematográfica brasileira recente que toca no assunto favela o faz com um olhar estrangeiro. A “violência” é sempre o centro, crianças muito pequenas aparecem com armas na mão como se isso fosse algo corriqueiro na maioria das favelas, o ambiente favelado é uma ameaça à vida dos que vêm de fora. Coloco “violência” entre aspas porque a violência que a indústria do entretenimento tanto gosta e explora comercialmente é apenas um tipo entre tantas outras formas de violência que permanecem invisíveis. Educação de má qualidade, saúde desmatelada, ausência de saneamento básico, moradias precárias, desrespeito aos direitos fundamentais de cidadania são violências invisíveis, que não incomodam tanto a “boa sociedade” e, portanto, não rendem tantos filmes. E, o que é pior, esses filmes invisibilizam outras formas de sociabilidade, não-violentas, que são parte do cotidiano das favelas. O que dizia Milton Santos para as ciências sociais pode bem servir para a nossa cinematografia: queremos ver o dia em que os estudos sobre a “violência” dos de baixo cedam lugar aos estudos sobre as redes de solidariedades entre os pobres, sobre suas sociabilidades, suas formas de lazer e de construir o mundo.



Qual o sentido de reforçar estigmas? A quem isso interessa? No bem intencionado filme Meninas, de Sandra Werneck, por exemplo, vemos histórias de adolescentes faveladas que engravidam. Por que separá-las do asfalto? Por que não mostrar a mesma realidade entre moças de classe média que também engravidam adolescentes? A impressão que temos é que se trata de algo específico da favela, o que não corresponde aos dados do Ministério da Saúde, que apontam para o problema da gravidez precoce como algo generalizado em nossa sociedade. Nos extras, a diretora chega a dizer que aquelas meninas vêm de famílias desestruturadas, que não têm exemplos familiares para seguir. No entanto, o que vemos nas telas são famílias, sobretudo as mães, mas pais também, organizando, dentro de suas possibilidades, o acolhimento da jovem mãe e seu bebê. Talvez, fossem as meninas de camadas médias, ao invés de “famílias desestruturadas”, utilizaríamos o termo “novos arranjos familiares”.



Não estou querendo dizer que os problemas não existem, mas sim que a maneira pela qual os retratamos pode contribuir não para a sua superação, mas sim para a sua perpetuação. O filósofo húngaro Georg Lukács criticava o naturalismo na literatura por mostra uma realidade estática, um estado de coisas sem processo e, portanto, imutável. Nessas narrativas sobre as favelas encontramos esse naturalismo que, a pretexto de retratar a realidade nua e crua, mostra um mundo sem saída.



O certo é que quanto mais os pobres forem estigmatizados, pior será a nossa sociedade. Porque a verdade é que, no mundo em que vivemos, haverá cada vez mais pobres, e temos de pensar em alternativas para a classe trabalhadora empobrecida que não seja o encarceramento em massa ou o extermínio, sob pena de nos desumanizarmos todos a cada dia mais.



Refletindo sobre todas essas coisas, eu me peguei desgostando de uma música que, quando ouvi as primeiras vezes, tinha achado muito bonita. Chama-se Nomes de favelas, de Paulo César Pinheiro. Sua letra diz assim:

O galo já não canta mais no Cantagalo


A água já não corre mais na Cachoeirinha


Menino não pega mais manga na Mangueira


E agora que cidade grande é a Rocinha!
Ninguém faz mais jura de amor no Juramento


Ninguém vai-se embora do Morro do Adeus


Prazer se acabou lá no Morro dos Prazeres


E a vida é um inferno na Cidade de Deus
Não sou do tempo das armas


Por isso ainda prefiro


Ouvir um verso de samba


Do que escutar som de tiro
Pela poesia dos nomes de favela


A vida por lá já foi mais bela


Já foi bem melhor de se morar


Mas hoje essa mesma poesia pede ajuda


Ou lá na favela a vida muda


Ou todos os nomes vão mudar

Acontece que o galo ainda canta no Cantagalo, água não corre mais quase que na cidade toda, menino não pega mais manga praticamente em canto nenhum do Rio e a Rocinha é cidade grande como a cidade da qual ela faz parte (ainda que na Rocinha todo mundo se conheça e os vizinhos, diferentemente do meu prédio, ainda se cumprimentem). Ninguém faz mais juras de amor no Juramento? Como assim? Que tipo de gente mora lá então? No Morro dos Prazeres não há mais prazeres? Seus moradores discordam! No Morro do Adeus, chegam e saem pessoas, como em qualquer outro lugar. E a vida na Cidade de Deus não é só inferno, pois o povo de lá também tem seus momentos de poesia.



E a vida tem de mudar só na favela ou é na cidade inteira? E quais mudanças queremos? São as do tipo “choque de ordem”, ocupação militar por unidades pacificadoras da polícia ou as que sejam construídas de modo democrático e cidadão, com o protagonismo dos próprios moradores de favelas?



Acho que já passou da hora do povo favelado produzir filmes.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Fala na Audiência Pública sobre o Funk na ALERJ, em 25/08/2009




por Adriana Facina (antropóloga, professora da UFF e membro do OICult)

Bom dia a todos e todas. Eu gostaria de agradecer o convite da Comissão de Direitos Humanos para participar dessa audiência e dizer que estou muito emocionada de ver a transformação impulsionada por um movimento político-cultural ocorrer diante de meus olhos.



Quero começar a minha fala relembrando que o que o funk sofre hoje na verdade é um capítulo de uma história mais antiga de criminalização da cultura negra no Brasil. A perseguição aos batuques que vinham das senzalas, à capoeira, ao maxixe, ao samba, entre outros, fez parte da formação da nossa sociedade, profundamente opressiva com os debaixo. Um exemplo importante dessa perseguição ocorreu quando Pixinguinha e os Oito Batutas, grupo de músicos jovens e de maioria negra, foram convidados a tocar na França em 1922, desencadeando a ira das elites, registrada nos jornais. Segundo Letícia Reis,



“Um articulista deplorava o fato de que fosse mostrado nos boulevards de Paris um Brasil pernóstico, negróide e ridículo (Diário de Pernambuco, 1o de fevereiro de 1922, apud Efegê, 1985: 183), enquanto outro, endossando esta opinião, acrescentava: são oito, aliás, nove pardavascos que tocam viola, pandeiro e outros instrumentos rudimentares. E depois ainda nos queixamos quando chega por aqui um maroto estrangeiro que, de volta, se dá à divertida tarefa de contar das serpentes e da pretalhada que viu no Brasil(Jornal do Comércio, Recife, 1o de fevereiro de 1922, apud Cabral, 1997: 73-74).”[1]



Quanto a cultura brasileira como um todo perderia se vozes como essas tivessem sido silenciadas? Outro músico negro, João da Baiana, que hoje dá nome ao Terreirão do Samba, chegou a ser preso por vadiagem por estar de posse de um pandeiro, instrumento musical associado ao samba, visto então pelas forças da ordem como sinônimo de arruaça e violência. Essas vozes podem parecer rudes, incivilizadas, agressivas aos ouvidos mais sensíveis de seu tempo, mas expressam uma experiência social de modo único, realidades que não vemos nos jornais ou nos livros. No dias de hoje, proibir o baile funk é segregar ou tornar invisível essa experiência do que é ser jovem e favelado em nosso contexto urbano e isso nos impede de entender e transformar os problemas sociais que geraram essa situação.



Criminalizar essa cultura é criminalizar os pobres. De outro modo, como entendermos o tratamento “especial” dado ao funk? Um dos grande mitos, sustentado pelas forças policiais e pela imprensa, é a de que os bailes funks provocam violência e o aumento de ocorrências que ameaçam a ordem urbana. No entanto, sabemos que tais fatos não são exclusivos de bailes funk e sim comuns a qualquer tipo de aglomeração, sobretudo as que envolvem a juventude. Jogos no Maracanã provocam o aumento de ocorrências policiais em seu entorno e nem por isso se tornaram proibidos. Do mesmo modo, micaretas, o réveillon de Copacabana, festas em boate, chopadas e por aí vai. Portanto, fica claro que o problema não é tanto o funk (que, aliás, continuar a ser tocado em boates da Zona Sul, festas em condomínios de classe média, clubes fechados etc.), mas sim quem produz e se diverte com ele.



É preciso garantir aos jovens, negros, pobres, favelados o direito de se expressar no mundo e, sobretudo, o direito de sonhar. Por meio do funk, milhões de jovens deste estado descobrem a possibilidade de investir na carreira musical, fazendo desta um projeto de futuro sonhado. Eles criam expectativas em meio ao deserto de expectativas que são as suas vidas. Ganham auto-estima quando boa parte da sociedade olha para eles como ameaça ou como lixo, como pessoas que seria melhor que não existissem.



A criminalização do funk impossibilita isso e reforça identidades negativas que reservam ao futuro desses jovens a cadeia, a morte ou a infelicidade de uma vida de trabalho escravizante e desprovido de significado.



Por fim, o funk tem de ser alvo de políticas públicas de cultura e não assunto policial ou de segurança pública. Entretanto, essas políticas públicas devem se voltar para atender as demandas dos funkeiros, garantindo sua cidadania cultural e sua autonomia e não a sua instrumentalização e domesticação. É legítimo usar o funk em campanhas educativas e outras do gênero. Mas uma verdadeira política cultural para o funk deve garantir a diversidade e as possibilidades criativas do gênero, que não pode ser refém de um mercado que, por sua busca pelo lucro fácil, só investe no que está na moda, matando a fonte de inspiração da grande diversidade musical que compõe a produção funkeira.



Faço votos de que em futuro próximo o funk possa cantar em alto e bom som como faz o samba na música O samba nunca foi de arruaça, de Ratinho e Monarco:

Existia um certo preconceito


Que nos tirava o direito de sambar com liberdade


Mas apesar do preconceito, o sucesso era perfeito


Quando o samba ia pra cidade

Esperamos que a ALERJ, como casa do povo, e as autoridades públicas aqui presentes promovam os esforços necessários para garantir essa cidadania ao funk e aos funkeiros.



Até a vitória!



[1] “Modernidade com mandinga:samba e política no Rio de Janeiro da Primeira República”. Capturado em http://www.academiadosamba.com.br/monografias/leticiavidor.pdf, em 25.08.2009.

domingo, 19 de julho de 2009

OS BAILES FUNK



por Gilberto Velho*

Um dos principais desafios da vida na grande cidade contemporânea é o convívio das diferenças. Vivemos em metrópoles complexas, diferenciadas, com múltiplos estilos de vida, gostos e costumes. Os exemplos são infindáveis e passam por trabalho, religião, origem regional, preferências políticas, esportivas, lazer em geral, etc. A questão do funk volta à tona com a retomada de antigas acusações que o associam à criminalidade e à violência. Por outro lado, hoje existe um movimento cultural que defende e valoriza o funk não só como música, mas como estilo de vida, atitude e expressão artística. Certamente, uma política exclusivamente repressiva e policial está condenada ao insucesso e só acirrará tensões e conflitos sociais. Parece inquestionável que existem situações em que criminosos estão presentes nas festas funk, eventualmente patrocinando-as. Caso existam situações de violência e crimes, cabe à polícia investigar e, caso comprovado, tomar providências. Mas a generalização apressada e simplista significa desqualificar, estigmatizando todo um conjunto de manifestações associado ao lazer, à festa, e à sociabilidade de boa parte da população do Rio de Janeiro.


No entanto, também é indiscutível que há um problema de convivência entre o horário e o som poderoso desses bailes em relação as suas vizinhanças, seja dentro ou fora das comunidades. Diariamente, lemos nos jornais cartas de leitores com reclamações quanto à impossibilidade de repouso e sono de milhares de pessoas prejudicadas pelo total desrespeito às normas básicas de convivência. Nos fins de semana isso fica mais evidente. Na sexta-feira, por exemplo, milhares de moradores de Copacabana e Ipanema são obrigados a ouvir em alto volume o som que vem dos morros. Normalmente, começando por volta das dez horas da noite, isso se prolonga até seis horas da manhã. Parece-me um caso exemplar para buscar formas de diálogo e de aperfeiçoar nossos padrões de cidadania com pretensões à civilidade. É claro que a solução não é uma operação policial com armas pesadas mas passa, necessariamente, pela ação do poder público. Este deveria desempenhar o papel de mediador entre os freqüentadores e patrocinadores dos referidos bailes e os moradores de suas vizinhanças para se chegar a algum tipo de acordo e negociação. Diga-se, de passagem, que o desrespeito à lei do silêncio não é exclusivo dos bailes funk, mas acontece, por exemplo, nos famosos plays de prédios de classe média, embora sem a mesma intensidade e freqüência. Agora mesmo, no período de festas juninas, aceitou-se como normal os estouros de bombas e foguetes por parte de petizes estimulados por seus devotados pais e avós. Existe, assim, um problema geral de falta de civilidade e capacidade de convivência e respeito mútuo dentro de nossa cidade.


Os bailes funk, sem dúvida, como estão transcorrendo hoje, constituem um problema de convivência com vizinhos que simplesmente querem dormir e se recuperar de suas atividades rotineiras. Mas é fundamental que para lidar com essa questão não se retorne a um padrão meramente repressivo e policialesco. Se há crime e violência comprovados, providências têm de ser tomadas pela autoridade policial. O grande avanço seria estabelecer canais de comunicação e de diálogo que permitissem que as diferenças fossem respeitadas sem que fossem agressões de um grupo contra outro.


* Antropólogo

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Lançamento do livro do Grupo Tortura Nunca Mais: homenagem aos 20 anos da medalha Chico Mendes em DH




quarta-feira, 17 de junho de 2009

COMMODITY BLACK GIRLS




Não sou professor de educação física, fisiologista ou coisa parecida. Sou um treineiro de terreno baldio.



Esses assuntamentos que se seguem são assim mais pra devaneios culturais políticos de um velho comunista feitos de enuviadas e enebriadas lembranças.

Madrugada dum mês de janeiro de 1986, mesa de barraquinha em frente ao portelão: componentes da mesa: tiburcio maia, compositor do quilombo, ari araújo, sociólogo, pesquisador, joão saldanha e eu, pato novo no samba, vice-presidente da ala de compositores do quilombo.
Pauta da reunião: copa do mundo de 1986 e quantas seleções africanas passariam para a oitas de final. Concenso: se o brasil não se classicasse, o que era improvável, a gente passaria a torcer pra seleção que tivesse mais crioulo além da do brasil, muito provavelmente a frança, se não fosse um seleção africana.

Ari Araújo defendia a tese e que: a bola é um corpo que se equilibra no chão sobre a parte menor do seu corpo.



No que joão saldanha completava: é por isso que os negros são feras no futebol, a bola é uma bailarina, e todo crioulo é meio bailarino.



Nesta época eu já estava irremediavelmente contaminado pelo feminismo negro socialista de camaradas do MNU como Lélia Gonzáles, luzia e do NZINGA Coletivo de Mulheres Negras muitas desse grupo hoje fazem parte do Crioula.



Sob o efeito desse doce veneno, pensei e questionar joão saldanha mostrando a ele sua contradição, já que ele era contra mulher jogar futebol mas ao mesmo tempo “avalizava” a tese do Ari. Mas, melhor não, seria muita ousadia tava conhecendo o velho guru aquela hora, em talvez não fosse a melhor hora. Hora essa que veio, quando visitei joão, internado, com problemas de respiração depois de voltar da cobertura de um jogo nas altitudes dos andes.



Mas depois dá pra falar disso com mais calma. Agora quero aproveitar a navegação dessas lembranças pra assuntar com meu umbigo, deixando vocês de voyer “escritivos”: - Se as teses científicas de joão e ari estão certas, como acredito que estão, se as meninas de favela e periferia, na roça, nas comunidades quilombolas tiverem oportunidades iguais ao meninos de jogar futebol, desde os 3,4 anos de idade, são grandes as chances de termos muito mais martas, pretinhas, formigas,etc

Só que então elas vão passar a enfrentar os mesmos problemas quês os meninos, serem alvos e caçadores de craques-bebês, como eles.



Mas não só os mesmos problemas que eles, mas mais os problemas que geralmente a mulher enfrenta quando começa a conquistar espaços em profissões que a cultura machista consagrou serem pra macho... futebol é pra homem, não é esse o mote? Além de serem alvos mais fáceis de pedófilos travestidos de técnicos, empresários,etc.

Além disso meninas, depois dos 11, 12 anos, até antes, passam a ter, não problemas, mas especificidades que os meninos quando atingem a mesma idade não tem, ou se tem, não afetam tanto o corpo.



O fato é que se as meninas tiverem as mesmas oportunidades que os meninos, desde as primeira infância, e como até uns 12,13 anos prevalessem as habilidades á força física... elas vão se dar bem, não individualmente, ou por acaso, ou esforço próprio, só com ajuda da família duns amigos, como é o caso de marta. Mas vão se dar bem coletivamente.

Mas, aí vem um problema: no que diz que o jogador de futebol hoje é uma commodity, e o brasil o maior exportador de comodity do mundo, pela primeira vez depois de 121 anos de extinta legalmente a escravidão, alguém da credibilidade, do pesquisador centro internacional e estudos do futebol, admite que serem humanos são mercadorias.



A entrada de meninas negras no mundo do futebol, coisa boa, legal, também as transforma em commodity como os meninos negros.

A Esquerda ortodoxa stalinista brasileira, e também a trokitsta reformistas, eita redundância, repetiram cem mil vezes, que o futebol é ópio do povo, que muitos de nós acreditamos nisso, como verdade absolutista, dogma. Até hoje, novos e novas esquerdistas torcem o nariz para o futebol, inclusive camaradas negros socialistas ,comunistas, e não dão importância a ele nos seus partidos socialistas, mandatos políticos, ongs ecorganizações de esquerda.



E deixam campo livre para que a direita use o futebol outros esportes pra suas políticas clientelistas, assistencialistas, compensatórias e salacionistas, e principamente, de fortificação da hegemonia burguesa, branca, racista e neoescravocrata sobre a gente negra e branca pobre oprimida.

Quem está vendo a copa das confederações na áfrica do sul, dá só uma prestadinha de atenção, numa mensagem da fifa: a entidade e uma ong estão implantando uns vinte centros de futebol por toda áfrica. Estes centros serão bancados por grandes multinacionais do esporte como nike, adidas e outras... as mesmas que exploram mão de obra escrava no paquistão, na tailândia, na china.



Logo logo, não só o brasil, mas muitos países africanos serão exportadores de commoditys para o futebol mundial, quer dizer europeu, craques-bebes que serão exportados de seus países, por alguns milhares de euros, ou dólares pra uns dois três anos, cinco no máximo serem vendidos ou revendidos por 1000 milhão mais.

O problema nosso é que, nós, negros da diáspora, estamos ainda tão marcados e traumatizados e doloridos com os 500 anos de escravidão passados, que nem estamos ainda sentido os grilhões e as dores das escravidões modernas e futuras.



O futebol pode até ser ópio do povo, mas, como o ópio e outras especiarias, é uma das formas de trabalho escravo do 3 milênio.



E é preciso que a companheirada e os e as camaradas negros e branco/as revolucionários, troks’refomistas se liguem nisso. Geral,
E em patircular as companheiras e camaradas negras e brancas feministas socialistas e comunistas.

Deley de Acari
Poeta e animador Cultural Desportivo.
Trabalha com Escolinha de Futebol
Pra meninos e meninas no Complexo
De Favelas de Acari.

Literatura de 2a